Sobre “Ligações Perigosas” e alguns esclarecimentos sobre violência contra a mulher

Boa tarde!

Hoje é o último dia da minissérie de 10 capítulos da Rede Globo, Ligações Perigosas, que é baseado em um clássico literário francês de um drama histórico, “As ligações perigosas”. Também teve um filme de de 1988, ou seja, conta uma realidade social de final do século XX.

O objetivo desta resenha não é falar sobre o filme, ou sobre as peculiaridades da minissérie (que por sinal estou adorando, foi muito bem produzida e tem um elenco incrível), mas sim debater um pouco sobre uma questão muito em voga nos últimos tempos no Brasil, que é a violência contra a mulher. E você quer saber o que eu posso retirar disso da minissérie Ligações Perigosas? Prossiga a leitura.

Contextualizando uma realidade… no caso da minissérie temos uma sociedade brasileira de início do século XX, ambientada em Vila Nova, no litoral paulista.

Cecília é uma menina típica de uma classe média alta. Educada em um convento, Cecília passa grande parte da sua vida lá, mas sai para casar obrigada pela mãe, Yolanda, com Heitor, um homem muito mais velho, porém bem sucedido, que sua mãe considera ser um bom partido para ela.

Tendo em vista só o parágrafo acima devemos considerar que uma menina criada em um convento, no início do século XX no Brasil, por mais que tenha saído de lá na adolescência, é, na realidade, uma criança. Obviamente seus conhecimentos a cerca de sexualidade, relações, romances e afins não era muito vasto, ficando apenas no âmbito da imaginação.

Sua tia Isabel, uma mulher rica, poderosa, era amante de Heitor e fica furiosa ao se ver trocada por uma menina mais nova. Para se vingar e atingir seu ex-amante, ela resolve usar Cecília, para Heitor não se casar com uma menina “casta”, para ele não ter essa satisfação. Com esse intuito, primeiramente ela usa Felipe, um jovem rapaz professor de música, para se aproximar de Cecília e fazer com que a menina se apaixone. Objetivo concluído. Ao perceber que os dois se restringem ao sentimento puro do romance juvenil da época, Isabel pede ajuda de Augusto, um bon vivant, que também é seu amante, para seduzir e desvirginar Cecília.

Vamos chegar a cena de debate: Augusto adentra o quarto de Cecília enquanto a menina dorme, para entregar cartas de Felipe. A menina acorda e se prepara para responder ao amado. Enquanto ela escreve, Augusto passa a mão em seu corpo. A menina se assusta e diz que vai gritar e chamar pela mãe. Augusto responde que não será de bom tom uma menina noiva receber um homem em seu quarto na calada da noite. Cecília pede para ele ir embora, ele diz que só irá se conseguir um beijo, afirmando que ensinará a menina a beijar, pois ele não se vê satisfeito com um rápido selinho que Cecília lhe dá. Os dois se beijam. Primeiro ele a beija e depois ela o beija repetindo o manual ensinado. Ele pede para ele ir embora e ele não vai. Joga a menina na cama e tampa sua boca. Ele começa o ato sexual. A menina começa a chorar. Ele pergunta se ele a está machucando e ela responde que não, coagida. Ele diz: “Você sabe que a última coisa que eu quero é te machucar”. Cecília concede e ao final da cena demonstra estar sentindo prazer.

E aí começamos a nossa discussão em si… os telespectadores em geral se concentram na parte “ela sentiu prazer” e parecem ignorar todo o resto da cena, que incluem um homem mais velho assediando uma menor, este homem a assustando, a chantageando e usando de força bruta para fazê-la ceder. E as pessoas se concentram na parte do “ela sentiu prazer”.

Gostaria de voltar na questão que Cecília NÃO SABIA O QUE IA ACONTECER. E nem o que estava ACONTECENDO. Ela estava absolutamente perdida diante da situação por sua inexperiência. Foi francamente manipulada durante várias cenas pela tia e pelo próprio abusador. O fato de ela ter sentindo prazer ao final, não anula todo o resto e a forma como foi feito. E outra: Por que as pessoas no geral teriam mais prazer em vê-la sofrer no ato? Já não basta todo o conteúdo? Uma menina (menina mesmo), obrigada a casar com um homem muito mais velho, manipulada pela tia, e abusada por um homem.

No decorrer dos capítulos Cecília começa a se “aproveitar” dessas situações com Augusto para virar mais mulher e realmente gosta. Inclusive a tia começa a perceber um padrão no comportamento da menina: de tímida, para ousada. De inocente, para esperta. É absolutamente natural que uma situação como aquela a modificasse plenamente.

O que precisamos parar para pensar e é essa a minha intenção com esse texto é sobre algo chamado naturalização da violência. E o quanto nós, seres humanos, estamos acostumados a julgar mulheres quando a culpa não é delas. Cecília nesse caso é vítima e se aproximando do último capítulo ela percebe o quanto sua tia a envenenou e manipulou.

Não precisamos nos considerar “feministas” para pensar meramente sobre um assunto como esse, mas podemos pensar o quanto o feminismo é importante justamente para debatermos esses assuntos de forma embasada.

Precisava escrever esse texto. Augusto não a seduziu, como inclusive vinhetas da minissérie escreveram. Ele a estuprou. Ponto final.

Apesar de não estar dentro do tema discutido, gostaria de ressaltar a brilhante interpretação da atriz Marjorie Estiano (Mariana), a amante de Augusto por quem ele realmente se apaixona.

Ligações-Perigosas-Logo

Informações finais:

Cecília – Alice Wegmann.

Iolanda – Lavínia Pannunzio.

Heitor – Leopoldo Pacheco

Isabel – A gloriosa Patrícia Pillar

Felipe – Jesuíta Barbosa

Augusto – O glorioso Selton Mello

 

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Publicado por

brunabonfeld

Sou leitora, estudante de História, mãe, esposa, filha, amiga, admiradora de Psicologia, amante de artes no geral e de comida. A ordem de importância não está em ordem :)

Um comentário em “Sobre “Ligações Perigosas” e alguns esclarecimentos sobre violência contra a mulher”

  1. Exatamente, Bruna! Belo texto! Não acompanhei essa novela, mas concordo contigo que há essa naturalização da violência. E pelo que você descreve, realmente, é uma cena de estupro e isso não pode ser ignorado.

    E o “curioso” é como algumas cenas abalam mais que outras…um beijo gay é um absurdo…mas um estrupo, não. Faz parte dessa naturalização (errônea) que você comentou.

    Eu até entendo a cena tratar de algo real, que já aconteceu muito e ainda acontece no dia a dia, serve para tratar uma realidade. Mas não justifica reforçar essa ação.

    Outra coisa que acho errado e que é amplamente reforçada, principalmente por essa emissora, é essa naturalidade de ser certo trair, ter amante, ser corrupto no trabalho, tratar maus os pais, fazer falso testemunho, entre outros, que influenciam um mal comportamento social (ao meu ver).

    Esse debate é super válido, parabéns!
    bjo.

    Curtido por 1 pessoa

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